Freud dividiu o inconsciente em três instâncias: id (que são as pulsões, às vezes incontroláveis), superego (os nossos pais e educadores introjetados dentro de nós) e o ego (que faz a intermediação entre o inconsciente e a realidade; quem fala e se comunica com a sociedade é o ego; às vezes o id, o inconsciente, aflora e provoca o que se chama de ato falho).
O estudioso Otto Fenichel apropriou-se dessas definições de Freud e lhes deu nova utilização. Fenichel dizia que poderia haver um "deslocamento do superego" (dava como exemplo um quadro de alguém da família, que se respeita muito e é colocado em local que possa "vigiar" o comportamento das pessoas da casa) e falava ainda na "personificação do id" (usava como exemplo a adoração que as pessoas sentem por um artista transgressor).
Entende-se que o sensacionalismo faz exatamente isso. Ele trabalha com a punição (na forma de superego acessório) e a transgressão (como id personificado).
Enquanto existiu, o jornal "Notícias Populares" soube utilizar essas possibilidades de acesso ao inconsciente de seus leitores e conquistar seu público.
O cinema sabe utilizar esses recursos psicanalíticos para atrair o público e atuar como função terapêutica. Há produções cinematográficas, em que o protagonista é apenas superego, ou apenas id, interagindo com egos, que representam quase sempre a perspectiva do (a) espectador (a).
O filme “Instinto Selvagem” (Basic Instinct), de 1992, tem uma protagonista, vivida pela atriz Sharon Stone, que é uma representação do id. A personagem é homicida, usuária de drogas, bissexual, transgressora. Id em período integral.
“Robocop” é o pólo oposto. Trata-se de um superego blindado, com traços de ego (lembranças remotas e quase inconscientes da mulher e do filho). Robocop é implacável na punição aos ids transgressores (assassinos, estupradores, bandidos). É um esquadrão da morte, com poder contínuo de fogo. Ele tem a função de tranqüilizar o público (egos que vivem em grandes centros e estão sempre à espera de um criminoso eventual).
Ambos os filmes (“Robocop” e “Instinto Selvagem”) foram dirigidos por Paul Verhoeven.
Uma produção mais recente, “Onde os Fracos Não Tem Vez”, é outro exemplo de um personagem id. Trata-se de um assassino serial, que não vai à feira, não trabalha, não assiste TV. Ele apenas mata outros personagens. É perseguido por um superego (um xerife em período pré-aposentadoria) e caça, por sua vez, um ego (um veterano da Guerra do Vietnã, com mulher apavorada e sogra em estado terminal).
Filmes ancorados em superegos acessórios ou ids personificados geralmente fazem sucesso e resultam em premiação garantida. "Onde os Fracos Não Tem Vez" ganhou o Oscar de melhor filme, em 2008, e deu a Javier Bardem, que interpreta o "serial killer", o Oscar de ator coadjuvante.
O filme "Tropa de Elite", sucesso do cinema brasileiro, vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim (2008), reproduz os mesmos mecanismos de produtos originários de Hollywood.
Veja como funciona: o capitão da suposta tropa de elite da Polícia Militar representa o superego punitivo. É ele quem vai destruir a ameaça que o traficante (id) representa para a sociedade.
O capitão é ego apenas em alguns momentos do filme (ele segura um nenê, discute com a esposa, sofre). Depois, afasta-se dessa perspectiva de ego e torna-se "blindado", forte, indestrutível, porque é assim que o ego "vê" o superego. O capitão Nascimento é o Robocop em versão verde-amarela. Os dois são iguais e têm a mesma função: sufocar a ameaça representada pelo id.