Na tese que defendi sobre o sensacionalismo - "Espreme que Sai Sangue, Um Estudo do Sensacionalismo na Imprensa" - fiz um estudo sobre o início desse gênero de imprensa e verifiquei que os primeiros jornais publicados nos Estados Unidos e na França eram sensacionalistas.
O primeiro jornal dos Estados Unidos, "Ocorrências Públicas" (Publick Occurrences), foi também o primeiro jornal sensacionalista dos americanos. Editado em 1690, por um gráfico inglês (Benjamin Harris), que vendia poções milagrosas, trazia "cascatas" (por exemplo, uma história fictícia sobre um rei francês que havia tomado "liberdades imorais com a mulher do príncipe") e era racista, chamava os índios de "selvagens miseráveis".
Entre 1560 e 1631, aparecem os primeiros jornais franceses. Eram o "Nouvelles Ordinaires" e "Gazette de France". Esses veículos impressos eram muito parecidos com os jornais sensacionalistas da atualidade.
Antes do surgimento desses primeiros jornais, quando ocorriam acontecimentos que chamavam a atenção e mexiam com a imaginação do público francês, eram transformados em publicações, chamadas "occasionnels", brochuras com seis a 16 páginas, que traziam uma ilustração junto ao título.
É interessante notar que esses relatos ocasionais vão continuar existindo até o século 19, quando se transformam em publicações muito populares, chamadas de "canards". Canard é uma palavra francesa que significa "pato" e também "conto absurdo". Em 1841, há relatos de vendedores de "canards" que saíam às ruas, gritando para chamar a atenção do público para suas manchetes mirabolantes.
Essas publicações custavam muito barato, cinco centimes, e eram destinadas ao povo.
Uma definição da época ilustra o que era um "canard":
"É uma notícia às vezes verdadeira, sempre exagerada, freqüentemente falsa. São detalhes de um horrível assassinato ilustrado, com gravuras em madeira de estilo ingênuo. É um desastre, um fenômeno, uma aventura extraordinária. Paga-se cinco centimes e se é roubado", comentava o escritor Gerard de Nerval, em um livro chamado "O Diabo em Paris".
Algumas manchetes de canards:
"Crime abominável! Um homem de 60 anos cortado em pedaços" E a linha fina: "Enfiado em uma lata e jogado como ração aos porcos por seu irmão e sua bela irmã"
"Um crime pavoroso: seis crianças assassinadas por sua mãe" E o subtítulo: E jogadas numa fossa".
Outra manchete: "Um crime sem precedentes! Mulher queimada viva por seus filhos" Leia os detalhes horríveis.
Havia manchetes com homens peixe, monstros anfíbios e freqüentemente dragões sobrevoavam os céus de Paris.
Segundo o estudioso, Jean-Pierre Seguin "os temas dos canards são variados e abordam principalmente o fato criminal, a busca pelo sensacional, o gosto da anedota". Graças aos canards, é possível, segundo Seguin, retratar toda a história do século.
As pessoas pegavam essas publicações, levavam para o bar e discutiam com os amigos, em casa, com seus parentes. Era uma forma de entretenimento, como hoje são as revistas sobre telenovelas e a vida dos autores.