* 1963
+ 2001
O jornal "Notícias Populares", o NP, surgiu em São Paulo, em 15 de outubro de 1963, com uma proposta política definida: bater de frente com a "Última Hora", que nascera nos anos 50 a pedido do governo Vargas, e sob a inspiração de Samuel Wainer.
Nos turbulentos anos pré-ditadura militar, "Última Hora" era a publicação de esquerda, voltada para o grande público, que mais se identificava com o governo Jango Goulart, herdeiro do trabalhismo de Vargas.
A iniciativa de criar o NP foi de grupos de direita, que imaginavam um "Última Hora" com sinal político invertido. Estavam por trás daquela primeira edição do NP, empresários como José Ermírio de Moraes Filho, Luiz Pinto Thomaz, João Arruda e - o principal deles - o então presidente da UDN, Herbert Levy.
O diretor-geral de "Notícias Populares" era um romeno, que tivera em seu país um jornal popular, expropriado pela revolução socialista. Chamava-se Jean Mellé, havia sido preso pelos comunistas e libertado depois da Segunda Guerra Mundial. Chegou ao Brasil como outros refugiados de guerra, com o sonho de reconstruir sua vida.
O encontro de Mellé com Levy foi providencial. Enquanto Levy precisava de alguém com experiência profissional e que tivesse horror da ameaça comunista, Mellé tinha sido vítima dos comunistas em seu país, era um talentoso colunista de Última Hora e ambicionava ter seu próprio jornal.
A primeira tiragem do NP saiu com 8 mil exemplares. Desde o início, Mellé optou por um modelo, que imitava as publicações sensacionalistas norte-americanas, rastreadas pelo tripé sexo, crime e escândalo. Esse gênero de sensacionalismo utiliza o fait divers, como seu principal nutriente. Fait divers é uma palavra francesa. Refere-se àquela notícia que provoca empatia no leitor (a criança salva depois de ficar quatro dias soterrada; o casal que se mata por amor; a chuva torrencial; o incêndio no edifício; entre outras situações).
Ditadura militar
Os planos políticos de Herbert Levy e seus companheiros tiveram duração efêmera e não vingaram. Levy sonhava em ser candidato a governador, depois de um sonhado golpe, que derrubaria Goulart. O golpe veio de fato, consumado pelos militares, que acabaram com as eleições e sufocaram as lideranças políticas da época. Notícias Populares perdeu sua finalidade política. Ironicamente, as duas publicações ideologicamente antagonistas - "Última Hora" e "Notícias Populares" - iriam parar nas mãos de um único grupo, o Frias-Caldeira, da empresa Folha da Manhã.
Bebê Diabo
De 1971 a março de 1990, o editor do NP foi Ibrahim Ramadam. É nesse período que o NP registrou seus maiores hits, como a fantástica história do "bebê diabo". Por 22 edições, de 11 de maio de 1975 a 1 de junho daquele mesmo ano, o NP deu em manchete uma história completamente inventada sobre um suposto nascimento de uma criança, com aparência de demônio, em São Bernardo do Campo, no Grande ABC. A história foi retro-alimentada pela população, que via o bebê diabo em telhados, na rua e até tomando táxis. As edições esgotavam nas bancas.
Loira Fantasma
Depois do bebê diabo foi a vez da loira fantasma, que espreitava motoristas e estudantes nos banheiros das escolas. A loira era uma morta-viva, que se aproximava de alguém, para pedir que o infeliz lhe tirasse o algodão das narinas.
Pelezão
Mais tarde viria outro grande hit, o Pelezão, esse sim, um personagem verdadeiro. Pelezão era um indigente. Ele estava na fila de um albergue público, quando foi chamado por uma psicóloga, com problemas conjugais. Pelezão entrou no carro da psicóloga e manteve uma breve relação sexual com ela. Os dois foram apanhados pela polícia. Pelezão virou herói do NP. Ganhou o apelido, porque a psicóloga supostamente o chamava de "meu Pelezão" nos momentos mais ardorosos do breve encontro. Pelezão estrelou um filme pornô, arrumou emprego como leão-de-chácara de um restaurante do Bixiga até desaparecer novamente no anonimato.
O NP levou seguiu essa fórmula de sucesso. Depois de uma reforma gráfica, consumada em 1990, o NP foi tirado das mãos de Ramadam. Aquela redação folclórica que havia na época foi substituída. O jornal se tornou mais tecnicista e menos romântico. A mão sobre o sensacionalismo tornou-se pesada. O jornal caiu em desgraça. O Ministério Público queria que ele fosse vendido dentro de um saco plástico. O NP foi obrigado a recuar. Os "presuntos" saíram da capa. Vieram as manchetes econômicas e políticas.
O leitor debandou. Foi embora para sempre. Sem anunciantes, com baixa venda em banca, o NP foi morrendo lentamente até apagar sem aviso prévio no início da noite de uma sexta-feira de verão, para surpresa de seus próprios redatores e repórteres. Sua última manchete, à Jean Mellé, poderia ser: "Acabou o trampo e levou um pé na bunda".