A melhor âncora para o jornal sensacionalista é o fait divers, que vai utilizá-lo como seu principal nutriente. Fait divers é uma palavra francesa, e seu signficado é simples: trata-se daquela notícia especial que vai provocar empatia no leitor.
O Grande Dicionário Universal do Século 19 relaciona alguns significados para fait divers:
"Pequenos escândalos, acidentes de carro, crimes terríveis, suicídios de amor, operários caindo de uma construção, roubo a mão armada, chuvas torrenciais, naufrágios, incêndios, inundações, aventuras, acontecimentos misteriosos, execuções, casos de antropofagia, sonambulismo, letargia. E ainda: casos de salvamento e fenômenos esquisitos da natureza, como gêmeos xifópagos, bezerros com duas cabeças..."
O teórico de comunicação Edgar Morin observa que no fait divers o limite do real e do inesperado, o crime, o acidente, a aventura irrompem de repente na vida cotidiana.
Do ponto de vista do leitor, ele acompanha a presença da paixão, da morte e do destino e ao mesmo tempo reprime seus instintos e se abriga do perigo.
Essa seja talvez a característica mais forte desse entretenimento passivo - o leitor, o telespectador, o ouvinte, tomam participação indireta no fato, vivem por procuração aquela memorável partida de futebol, sem precisar colocar a chuteira, levar pontapés e entrar em campo.
Diz Edgar Morin, em "O Espírito do Tempo":
"No fait divers as proteções da vida normal são rompidas pelo acidente, pela catástrofe, crime, paixão, ciúmes, sadismo. No universo do fait divers enfrenta-se a ordem das coisas, os tabus são violados, e leva-se ao limite a lógica das paixões".
O fait divers também faz uma curiosa aproximação entre jornalismo e entretenimento; para isso, basta verificar que muitas obras primas da literatura universal - e literatura é entretenimento - foram escritas com base em fait divers.
Alguns exemplos: os livros "Romeu e Julieta" (Shakespeare), "Madame Bovary" (Gustave Flaubert), "O Vermelho e o Negro" (Stendhal) e "Os Sofrimentos do Jovem Werther" (Goethe).
O livro "O Vermelho e o Negro" foi baseado no assassinato de uma senhora, morta por um seminarista. O caso aconteceu em 22 de julho de 1827 na igreja da localidade de Brangues. Para a polícia, o seminarista (Antoine Berthet) disse que havia sido substituído no coração de sua amada por uma outra pessoa. E não era o marido. No livro, o seminarista vira Julien Sorel. O autor, Stendhal, faz até uma homenagem às publicações sensacionalistas no meio do texto. Em um determinado momento, Sorel entra em uma igreja e vê um canard falando sobre a execução de um criminoso...
Para o teórico francês Alain Monestier, o fait divers convida o leitor a projetar suas fantasias, quando se exprimem sentimentos ambíguos e identifica-se a transgressão da ordem.
Diz Monestier:
"A leitura de uma reportagem nunca é inocente. E nunca é recebida como 'simples informação'. Quando um veículo de comunicação faz uma campanha em defesa da pena de morte, "ao reivindicar o rigor da execução, o público talvez busque eliminar simbolicamente o desejo assassino que ele prova inconscientemente em si mesmo".
Para um jornal sensacionalista, a notícia do dia, o fait divers, em que se valerá investir, é aquela que traz mais proximidade com o seu público, seja essa notícia o aparecimento de um bezerro de duas cabeças ou o nascimento de um bebê diabo.